Saúde

Antibiótico preventivo para infecção urinária eleva resistência bacteriana, mas não aumenta internações, indica estudo
Pesquisa com quase 50 mil mulheres no Reino Unido estima risco absoluto e 'número necessário para causar dano', dado inédito para orientar decisão compartilhada entre médica e paciente
Por Laercio Damasceno - 12/02/2026


Domínio público


O uso contínuo de antibióticos para prevenir infecções urinárias de repetição — prática recomendada em diretrizes clínicas quando outras medidas falham — não elevou o risco de internações por infecções resistentes em até um ano. Mas aumentou de forma significativa a resistência bacteriana detectada em exames de urina, inclusive a multirresistência. A conclusão é de um amplo estudo publicado nesta quarta-feira (11), no periódico The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health.

A pesquisa analisou dados de 48.297 mulheres no País de Gales, entre 2015 e 2020, e estimou, pela primeira vez em adultos, o risco absoluto de desenvolver resistência bacteriana associado à profilaxia com antibióticos — informação considerada central para a chamada decisão compartilhada em consultório.

Emergência global

A resistência antimicrobiana é tratada como uma emergência de saúde pública. Em 2019, infecções resistentes foram diretamente responsáveis por 1,27 milhão de mortes no mundo, número que pode chegar a 1,91 milhão até 2050, segundo estimativas citadas no artigo.

No caso das infecções urinárias recorrentes — definidas como dois episódios em seis meses ou três em um ano — a prevalência é estimada em 6% entre mulheres no Reino Unido.Além do impacto na qualidade de vida, a condição leva a uso repetido de antibióticos, combustível conhecido da resistência bacteriana.

“As mulheres com infecções urinárias recorrentes enfrentam um dilema real: prevenir novos episódios ou temer o desenvolvimento de resistência”, afirmam os autores, liderados por Leigh Sanyaolu, da Universidade de Cardiff.

Como um ensaio clínico tradicional seria eticamente problemático e logisticamente complexo, os pesquisadores utilizaram uma estratégia metodológica chamada “emulação de ensaio clínico-alvo” (target trial emulation), aplicada a bancos de dados eletrônicos de saúde do País de Gales.

Entre as quase 50 mil mulheres elegíveis, 839 iniciaram antibiótico profilático (trimetoprim, nitrofurantoína ou cefalexina). O desfecho principal foi internação hospitalar por infecção resistente em até 52 semanas.

Internações raras, mas resistência aumenta

Ao final de um ano, 616 mulheres (1,3% da amostra) foram internadas com infecção resistente. O risco foi de 1,4% no grupo sem profilaxia e de 1,9% entre as que usaram antibiótico preventivo — diferença que não alcançou significância estatística (razão de risco de 1,41; intervalo de confiança de 95% entre 0,74 e 2,24).Resultado semelhante foi observado para internações especificamente por infecção urinária resistente. 

Figura. Incidência cumulativa de internação por infecção resistente a antibióticos.
A inclusão no estudo refere-se àqueles que iniciam a profilaxia antibiótica durante o período de tolerância, em comparação com aqueles que não a iniciam. O período de acompanhamento inicia-se a partir do momento em que os participantes preencheram os critérios de elegibilidade e entraram no estudo. Para evitar a divulgação de dados individuais devido ao pequeno número de participantes, as curvas de incidência cumulativa são baseadas em uma média móvel. A área sombreada representa o intervalo de confiança de 95%.

Já nos exames laboratoriais, o cenário foi diferente. A resistência a pelo menos um antibiótico foi detectada em 23,7% das mulheres sem profilaxia e em 30,6% daquelas que usaram antibiótico preventivo (razão de risco 1,29). 

Para resistência a dois ou mais antibióticos — a chamada multirresistência — os percentuais foram de 14% e 22%, respectivamente (razão de risco 1,57).

Na prática, isso significa que, para cada 14,6 mulheres tratadas com antibiótico profilático, uma a mais desenvolverá resistência bacteriana a pelo menos um fármaco. Para multirresistência, o “número necessário para causar dano” foi de 12,5.

“Embora não tenhamos observado aumento de internações por infecção resistente, identificamos um aumento claro na resistência bacteriana em culturas de urina”, escrevem os autores.


Segundo o grupo, o principal avanço do trabalho é quantificar o risco absoluto — e não apenas o risco relativo — da resistência associada à profilaxia. “Esses dados são essenciais para apoiar discussões de decisão compartilhada sobre prevenção de infecções urinárias recorrentes”, afirmam

Até então, a maior parte das evidências vinha de estudos pediátricos ou de populações muito específicas, como pacientes que realizam autocateterismo. Em adultos, os dados eram escassos.

Para formuladores de políticas públicas, os resultados ajudam a equilibrar benefícios e riscos. A eficácia da profilaxia antibiótica na redução de novos episódios de infecção urinária é bem estabelecida, lembram os autores.
O desafio é ponderar esse benefício frente ao aumento mensurável da resistência bacteriana.

O estudo também levanta questões ainda em aberto, como o efeito de tratamentos por períodos superiores aos 3 a 6 meses usualmente recomendados. Na prática clínica, muitas mulheres permanecem em uso prolongado, especialmente quando relatam melhora importante da qualidade de vida.

Em um cenário de crescente preocupação global com a resistência antimicrobiana, a mensagem não é de proibição, mas de cautela informada. A decisão, sugerem os pesquisadores, deve ser individualizada — com números na mesa.


Referência
Biomarcadores Pré-Transplante para Predição de Mortalidade Após Transplante Hepático. Guergana G. Panayotova, MD, MHS; Sopio Simonishvili, PhD; Lianhua Jin, MS; Duc T. Nguyen, MD, PhD Edward A. Graviss, PhD; Yong Qin, MD Anastasia Xynogala, MD Tumininu Ayorinde, MBS Laurie J. Minze, MS Alexander Lemenze, PhD Krupa R. Mysore, MD, MS Julie M. Corkrean,  enfermeira Linda W. Moore, RD, PhD; Flavio Paterno, MD Ashish Saharia, MD, MS Constance M. Mobley, MD, PhD Arpit Amin, MD; Mark J. Hobeika, MD; Xian C. Li, MD, PhD; Paul J. Gaglio, MD; R. Mark Ghobrial, MD, PhD James V. Guarrera, MD,6Keri E. Lunsford, MD, PhD. Publicado online em: 11 de fevereiro  de 2026. doi: 10.1001/jamasurg.2025.6539

 

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